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Restaurante Xibei no shopping center Jin Yuan, em Pequim
**Pequim pôs fim a uma disputa sobre comida num restaurante chinês. Um porta-voz do Partido Comunista afirma ser preocupante que publicações nas redes sociais possam mergulhar numa crise uma empresa que opera há 38 anos — aparentemente, a servir pratos requentados a preços elevados.
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Após uma guerra de palavras de vários meses entre um _influencer_ e o proprietário de uma cadeia de restaurantes, o Partido Comunista deu o passo invulgar de **intervir diretamente** – deixando clara a determinação de Pequim em **controlar as celebridades** da internet e as plataformas de redes sociais.
Nos últimos meses, a cadeia nacional de **restaurantes Xibei** , que tem mais de 60 estabelecimentos em Pequim, tem estado a ser alvo de críticas nas redes sociais, por ter **pratos “pré-confecionados”**.
A controvérsia foi desencadeada em setembro, depois de o empresário e influencer **Luo Yonghao** , com 3 milhões de seguidores no Weibo, ter criticado a comida num Xibei, que não sabia “**como se tivesse sido feita na hora** , mas antes pré-confecionada numa cozinha central e reaquecida no local”, contou na altura o The Beijinger.
Luo considerou a**prática “repugnante”** , criticou os preços elevados da comida nos XIbei, e apelou a uma maior transparência e legislação sobre rotulagem de alimentos para o setor, que deveria ser obrigado a divulgar quando são usados componentes “pré-confecionados”.
**Jia Guolong** , fundador da Xibei, negou veementemente as acusações, ameaçou o influencer com uma **ação judicial por difamação** , e abriu as cozinhas para inspeção pública. Mas os seus esforços saíram pela culatra, quando imagens divulgadas nas redes sociais mostraram que a Xibei **usava ingredientes pré-embalados** e congelados.
A **controvérsia cresceu rapidamente** , à medida que os clientes começaram a criticar vários restaurantes por usarem pratos pré-confecionados — prática do setor da restauração **não abrangida nas normas nacionais**.
Entretanto, o enredo complicou-se, conta o South China Morning Post. Na semana passada, a Xibei confirmou que vai**encerrar este ano mais de 100 restaurantes** , cerca de 1/3 dos seus estabelecimentos em todo o país — uma decisão que afeta cerca de**4.000 postos de trabalho**.
Segundo Jia, a Xibei teve perdas de **500 milhões de yuan** (60 milhões de euros) na sequência das queixas de Luo. O fundador da cadeia de restaurantes desafiou o influencer a **debater no Weibo as suas “críticas difamatórias** “, mas a rede social chinesa simplesmente **encerrou as contas** de ambos.
**Wang Gaofei** , CEO do Weibo, explicou na altura ao Global Times que as contas foram encerradas porque **“organizar lutas ou debates” era estritamente proibido** “segundo as normas sobre conduta negativa de celebridades” emitidas pelo regulador do ciberespaço da China no mês passado.
A controvérsia à volta da Xibei foi desencadeada pelo antigo professor, empresário e influencer Luo Yonghao, que conta com mais de mais de 7,8 milhões de seguidores na plataforma de partilha de vídeos curtos Douyin
## Entra o Partido Comunista
A controvérsia, que parecia não ter fim, tinha inevitavelmente que chegar ao conhecimento do Partido Comunista da China, que **decidiu intervir**. Nos últimos dias, o People’s Daily, ou “Diário Popular”, jornal oficial do partido, publicou vários artigos sobre a Xibei.
“**Isto é típico da era da internet**. Um influencer proeminente domina a opinião pública online com **material sensacionalista** enquanto a parte exposta responde de forma desajeitada e as plataformas atiçam as chamas… para atrair atenção”, diz um dos editoriais do jornal.
Segundo o editorial, **as perdas da Xibei eram entristecedoras** , mas é ainda “mais preocupante que **publicações nas redes sociais possam mergulhar numa crise** destas uma **empresa que opera há 38 anos** e gere centenas de estabelecimentos”.
Em outros artigos, o jornal apela às empresas que melhorem as suas competências de relações públicas — e aos influencers, **que se comportem adequadamente** , de modo a ajudar a defender a **estabilidade social e económica** , em vez de simplesmente procurarem audiências.
Um dos artigos enumera vários tipos de “**palavras e ações irresponsáveis** ” usadas pelos influencers nos últimos anos, incluindo interpretações superficiais ou distorcidas das políticas do partido e do Estado, **opiniões demasiado tendenciosas** sobre certas questões públicas, difamação de empresas por interesse pessoal e a encenação de conflitos “para gerar audiências e monetizar a atenção”.
No incidente da Xibei, diz o artigo, muitos utilizadores online viam as queixas de Luo apenas como as de um consumidor relativamente a uma empresa, “mas isto foi na verdade **uma expressão pública** , completamente diferente de uma conversa privada com amigos”.
Num outro artigo, o People’s Daily critica as plataformas de redes sociais por “**amplificarem conteúdo confrontacional** através de algoritmos e pesquisas populares”, o que servia para “polarizar opiniões, dificultar a construção de consensos e **corroer espaços online positivos** “.
“A **opinião pública online** tornou-se um fator que afeta a sobrevivência das empresas e**até o desenvolvimento económico geral** ” da China, lê-se no editorial, citado pelo SCMP.
## Inversão de rumo
Um cientista político sediado em Pequim, que prestou declarações ao SCMP sob anonimato por **não estar autorizado a falar** com os meios de comunicação, afirmou que estes editoriais são “**uma inversão de rumo** ” face à anterior “tolerância mediática” ou até simpatia pelos direitos dos consumidores.
“Isto mostra que **as autoridades estão cada vez mais receosas** da influência exercida pelas redes sociais e pelos influencers, o que indicia que se preparam para exercer uma **supervisão regulamentar ainda mais rigorosa** no futuro”, afirmou.
Segundo o People’s Daily, o caso Xibei mostrou como a busca de audiências pelas plataformas poderia “**alimentar a opinião pública negativa** “, o desejo de espetáculo dos consumidores e os receios das empresas.
Nos últimos anos, o governo de **Xi Jinping** tem feito esforços para controlar a opinião pública na internet. Em 2024, a Administração do Ciberespaço da China (CAC)**encerrou 107.802 contas** nas redes sociais, alegando irregularidades que iam desde violência até **difamação de heróis ou mártires nacionais**.
Numa campanha lançada em setembro, os alvos do regulador incluíam “incitar **antagonismo extremo entre grupos** , associar forçadamente questões sociais a identidade, região e género, e “espalhar emoções negativas e pessimistas”, como referir-se à **educação ou ao trabalho árduo como “inúteis”**.
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Desde a campanha, **várias plataformas de redes sociais foram punidas** com penalizações, e as contas de redes sociais de vários influencers foram eliminadas ou suspensas.
## O alvo errado
Apesar de as autoridades chinesas terem dado claros sinais de que estão atentas ao que os consumidores pensam e dizem nas redes sociais, principalmente se isso afetar a saúde das empresas, **o assunto Xibei não morreu totalmente**.
Na semana passada, num **raro momento de desacordo público** com os meios de comunicação estatais, um utilizador anónimo requentou a controvérsia na sala de chat do Guancha, jornal baseado em Xangai, onde deixou um comentário intitulado “**Desculpe, People’s Daily, desta vez não posso concordar”**.
Segundo o utilizador, que escreveu sob pseudónimo, o que aconteceu à Xibei foi “um **colapso fundamental do valor do produto** , e nenhuma promoção ou ação de relações públicas pode servir de cura”.
“Culpabilizar excessivamente o mau ambiente nas redes sociais e a opinião pública cria um **mau precedente para as empresas chinesas** — como se as empresas só precisassem de aprender a ‘controlar críticas’ ou apagar publicações”, afirmou. “**Proteger as empresas não significa protegê-las das críticas** “.
O artigo atraiu milhares de visualizações e suscitou uma animada discussão. Muitos dos utilizadores pedem ao People’s Daily que **defenda os direitos** dos consumidores e pressione o governo a introduzir regulamentação no sector das refeições pré-confecionadas — **em vez de atacar os influencers e as redes sociais**.
Afinal de contas, trata-se do Diário do Povo, órgão oficial do Partido Comunista — talvez o último jornal que esperaríamos ver defender os interesses das empresas, dos empresários, e do seu respetivo capital. Sinais dos novos tempos na China.
Armando Batista, ZAP //
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